Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

30 de junho de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte VI


Em frente ao espelho, Camila já estava ficando desesperada. Não conseguia achar nenhuma roupa bonita, seu cabelo não colaborava, os sapatos que trouxera na mala não eram nada indicados para uma festa... Enfim. Nada parecia dar certo e ela só tinha duas horas para tornar-se apresentável.
Quando Ronaldo contara, ao seu modo, para a mãe que Camila iria com ele, a paz se restabeleceu na casa. Foi como se ele houvesse aberto as portas para a alegria extrema. Tia Lúcia não parava de suspirar pelos cantos, satisfeita, dizendo que eles iam redescobrir a afinidade que tinham na infância. Camila sabia, tia Lúcia estava achando mesmo que, qualquer que fosse o problema de seu filho, a garota podia consertar. E isso assustava a garota.
Após construir uma pilha enorme de roupas em cima da cama, Camila decidiu vestir uma t-shirt clara, shorts jeans escuro com seu tênis predileto. Para completar, uma jaqueta de couro preta. Sua mãe sempre dissera que suas malas eram exageradas e seu pai ficava louco por ver que elas lotavam o porta-malas de seu carro. Dessa vez ela teve a certeza que sempre fizera o certo, do contrário, teria de sair como uma louca. Caprichou na maquiagem, soltou seus cachos naturais e finalmente conseguiu sentir-se bem. Ouviu uma batida na porta e se deu conta de que já estava 30 minutos atrasada.
- Desculpa, Ronaldo! Eu não me dei conta da hora!
- Relaxa, eu já me acostumei. Mulheres... Uau!
- O que foi?
- Nada... É que... – Calou-se por um momento. – Você está muito bonita!
- Obrigada... – Camila corou.
- Então... vamos?
Quando Ronaldo andou em direção à garagem, Camila viu que tia Lúcia estava mesmo muito animada. Ela nunca emprestaria seu carro para o filho ir a uma festa. Dentro do carro o silêncio dominou por um bom tempo.
- Camila...
- Oi?
- Tenho uma coisa pra te contar... – Mantinha o olhar fixo no caminho.
- Me conta.
- Não estamos indo exatamente para uma festa. – Deu uma rápida espiada no rosto da garota.
- Estamos indo para onde então? – Ele conseguiu assustá-la.
- Bem... É uma festa, mas não é de nenhum amigo meu. É um trabalho, digamos assim. – Camila manteve-se quieta. – Eu tenho uma banda e nós vamos tocar nessa festa. Eu ia dizer pra você, sabe, mas eu achei melhor dizer a caminho. Vai que você tenha um surto e conte tudo pra minha mãe... – Ronaldo começou a falar rápido e a garota não conseguiu entender metade.
- Tudo bem. – Ela interrompeu.
- Mesmo?
- Sim. – E retomaram o silêncio.
Depois de tanto silêncio, a garota sentiu um grande alívio ao ver que Ronaldo estava estacionando em frente a um lugar muito barulhento.
-Bom, chegamos. – Ele disse.
Desceram do carro e logo foram abordados por um grupo de jovens.
- Aí está você! Já estávamos pensando que não viria... Nossa! Essa é a sua prima? – Os garotos tagarelavam sem parar.
- Pessoal, essa é a Camila.
- Oi, Camila! Seja muito bem vinda! – Disse um dos garotos, com um sorriso que a fez ficar ainda mais sem graça.
- Obrigada.
- Alguém viu a Débora? – Perguntou Ronaldo olhando ao redor.
- É... então, cara. Eu tenho que te falar uma coisa. Em particular... – Disse outro garoto um pouco desconcertado.
- Mas estamos atrasados, Rafael. Temos que entrar logo.
- Vai ser rápido, eu prometo. A Camila vai ficar bem com os meninos. – Insistiu, Rafael.
- Eu cuido bem dela, cara. Fica tranquilo. – Disse o outro garoto, com malícia.
- Ok. Mas olha lá, hein. Sem gracinhas com ela. – Ronaldo se rendeu.
Ele e Rafael foram caminhando para uma parte mais calma antes da entrada e Camila ficou pensando como se comportaria na presença de quatro garotos desconhecidos.
- Vamos entrar pessoal? – Propôs um deles. – Seu primo nem nos apresentou direito, Camila. Jugando pelo comportamento do Marcos você deve estar com medo de nós. – Brincou ele.
- Não, não. Imagina – Camila sorriu encabulada.
- Como eu disse, esse demente é o Marcos, esses são Lucas e Alexandre e eu sou o Mateus.
Camila se sentiu mais segura com a atitude de Mateus. E depois de um tempo, já dentro da festa, passou a sentir-se confortável com os amigos de seu primo. Enquanto conversavam e riam, Camila percebeu que os garotos constantemente olhavam para o outro lado do salão. Isso a deixava muito curiosa.
- Acho que temos que ir ajeitando o palco. Daqui a pouco entramos. Até mais, Camila. – Disse Alexandre.
Os garotos se despediram, menos Mateus.
- Você não vai se preparar também? – Indagou Camila.
- Eu não toco na banda. Eu sou o empresário deles. – Respondeu rindo.
A conversa fluía muito bem com Mateus, mas a garota não conseguia parar de imaginar o que Rafael havia de tão importante para falar com seu primo. Ela não pôde segurar a curiosidade.
- Aconteceu alguma coisa ruim? Eles estão demorando.
- Ãaa... não, imagina... Eles já devem estar se preparando também.
- Tem certeza, Mateus? Você não me convenceu. Eu percebi que vocês estavam todos tensos.
O garoto pareceu entrar em conflito em seus pensamentos.
- Eu não ia te contar, Camila. Mas você vai ficar sabendo mesmo. Está vendo aquela garota ali do outro lado? – Mateus apontou para uma garota muito bonita.
- Estou.
- Ela é a Débora.

Agora ela se lembrava. Aquela garota bonita era a dona da voz que atormentou o sono de Camila. A que chamara Ronaldo de amor.

21 de abril de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte V


De alguma forma a voz daquela garota não saia da sua mente. Camila não conseguia entender como, depois de um dia daquele, aquilo poderia incomodá-la tanto. Custou muito até que o sono a agarrasse. 

Estava num lugar muito claro, onde o ar era puro e havia muito verde. Era um lugar realmente lindo. O canto dos pássaros era maravilhoso. Sentia-se tão bem! De repente a melodia que ouvia era “Lullaby” de Brahms, a música que sua mãe colocava para tocar quando contava um conto de fadas para ela dormir. E o som foi se misturando a uma voz tão doce quanto ele mesmo e ela pôde ouvir: 

- Estava esperando por você. Vem... Deixe eu lhe mostrar o lugar. 

Mal podia acreditar. Era a voz de Josh! Virou-se rapidamente e viu uma figura ao longe. Correu para encontrá-la enquanto ele a chamava docemente. 

- Vem, meu amor! 

Ela corria cada vez mais rápido, mas parecia que nunca iria chegar. Enfim a distância foi diminuindo e Camila percebeu que quem a chamava não era Josh e sim Ronaldo. Ela parou abruptamente e o rapaz chamou mais uma vez. 

- Venha, querida. Mais rápido! 

Sua voz demonstrava uma felicidade imensa. Felicidade essa que inundou o coração de Camila e a fez voltar a correr. Mas o vento que sentia contra o seu rosto mudou de direção e ela percebeu que estava sendo ultrapassada por alguém. Por uma garota. Camila parou novamente e assistiu a garota correr em direção aos braços abertos de Ronaldo. O sorriso dele crescia cada vez mais. A garota se jogou em seus braços e ele a abraçou como uma criança abraça sua pelúcia favorita. 

- Amor! – A garota disse com aquele mesmo tom meloso que Camila ouvira no quarto de Ronaldo. 

Camila acordou assustada, sua cabeça doía tanto que parecia prestes a explodir. Não conseguia acreditar no sonho que acabara de ter. 

“Fala sério! Era só o que me faltava esse estúpido invadir meus sonhos!” 

Levantou-se, tomou um remédio para a dor e resolveu ir até a cozinha tomar uma caneca de leite quente. Sua mãe costumava dizer que um remédio nunca funcionava se não fosse acompanhado por leite quente com mel. Fechou a porta do quarto e foi andando com muito cuidado para não acordar ninguém. Chegando na cozinha, procurou pelo interruptor e acendeu a lâmpada. Pegou uma caneca, foi até a geladeira e serviu-se de leite. Ainda estava pensando no sonho que havia acabado de ter. Aquilo a incomodava mais que um pesadelo cheio de monstros. Absorta em seus pensamentos, ouviu uma voz que a trouxe de volta à Terra. 

- Pesadelo? 

Camila virou-se e viu Ronaldo sentado, apoiando sua caneca no balcão. Parecia assustadoramente bonito. Por um momento, a garota perdeu a voz. 

- É... 

- Quer conversar sobre isso? – Ele estava estranhamente gentil. 

- Absolutamente não. – Um longo silêncio se seguiu. – Tem mel? 

- Aqui. – Apontou o recipiente no balcão. – Dor de cabeça? 

- Sim. 

- Receitas de família... – Ele sorriu. 

Camila sentou-se ao lado do rapaz. Sentia suas mãos trêmulas. Retribuiu o sorriso. 

- Camila... Eu fiquei pensando sobre o que você disse sobre a minha mãe e... Se ela vai ficar mais tranquila assim... Você pode vir comigo. 

- Eu posso? – Camila não conseguiu esconder sua surpresa. 

- Desculpa. Me expressei mal. – Ele começou a se enrolar com as palavras. – Não que seja um sacrifício te levar... É que... 

- Tudo bem. Eu entendi. 

- Se você quiser mesmo ir também, é claro. Por que se você não quiser, tudo bem pra mim. Não tem problema. – Seu rosto começou a corar. O que fez a garota sorrir. 

- Não... Sério! Eu entendi mesmo. 

- Então... Você vai? – Sua expressão fazia parecer que ele estava atravessando um campo minado. 

- Vou sim! 

Seu rosto passou de preocupado para aliviado e um sorriso envergonhado apareceu. – Acho que vai ser legal. 

A garota mal podia acreditar na cena que estava presenciando. Conseguia parecer menos real do que seu sonho. Ela percebeu um sentimento entre eles. Simpatia. Pela primeira vez.

11 de março de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte IV

Gente, mil desculpas pelo sumiço! Minha rotina tá meio corrida e acabou atrasando a continuação do conto e todos os outros posts. :\



Depois daquela cena desconcertante e do silêncio que se seguiu, Camila não via a hora de voltar para seu quarto. 
- Bom... acho que já estou satisfeito. – disse Rodolfo levantando-se. Mal havia tocado sua comida. – Vou deitar. Boa noite, Camila. 
- Boa noite, tio. 
Dava para ver a decepção nos olhos dele. 
Dois minutos depois Camila e tia Lúcia terminaram a refeição. Apesar de Lúcia insistir, Camila a ajudou com a louça. Enquanto a garota secava percebeu algo que partiu mais ainda o seu coração. Mesmo se esforçando para esconder, a garota percebeu sua tia chorar. 
- Tia, não fica triste assim. – Tentou confortar. 
- Ah, minha querida... como eu queria que o Ronaldo tomasse jeito. 
Camila ficara ouvindo os desabafos de tia Lúcia durante meia hora. Quando voltou para o quarto tentou repetir o que fizera antes do jantar. Enfiou-se debaixo das cobertas e ligou seu ipod bem alto. Quando estava quase conseguindo esquecer tudo, a imagem de sua tia voltava a sua mente. De novo e de novo... e de novo. De repente sentiu a necessidade de ajudar aquela família. Foi surgindo um sentimento que gritava dentro dela. 
Sem perceber, já estava batendo em uma das portas da casa de tia Lúcia: a porta do quarto de Ronaldo. Camila foi dominada pela vontade de acabar com o sofrimento de sua tia, foi cegada por seu coração fraco. 
Quando ouviu um barulho dentro do cômodo, o arrependimento começou a bater. Foi novamente assaltada por um sentimento, mas desta vez foi o de correr imediatamente dali. Ouviu-se um barulho de chaves e a maçaneta mexeu. Camila percebeu que já era tarde quando o rosto surpreso de Ronaldo apareceu após abrir a porta. 
- O que.. você quer? – Pela primeira vez, o vira sem palavras. 
As palavras de Camila também fugiram junto com sua coragem. 
- Vai ficar aí parada? – Esbravejou o rapaz. 
- Ãaa... posso entrar? – Camila arriscou, com medo. 
Ronaldo abriu mais a porta e fez menção que ela entrasse. O coração de Camila batia tão rápido que ela teve medo de que ele pudesse ouvir. 
- Desculpa te incomodar, mas eu tenho um assunto meio sério pra tratar com você. – Cada palavra pronunciada pela garota era muito bem planejada previamente. Falar com Ronaldo era como andar em um campo minado. 
- Tá bom, mas fala rápido. Eu tava ocupado. 
A garota arriscou espiar rapidamente o quarto. Seus olhos pararam no computador: uma janela de bate-papo em vídeo estava aberta, mas o cômodo do outro lado da tela estava vazio. 
- É sobre o que aconteceu depois do jantar. – Deu uma pausa para dar uma olhada na expressão do primo: desdém. – Eu fiquei conversando com a tia Lúcia por um tempo e ela me contou que está muito preocupada com você. Eu sei que talvez eu não tenha o direito de... 
- Não tem mesmo! – Mais uma vez Camila se assustou com a voz de Ronaldo que saia como um trovão. 
- Eu considero muito a sua mãe. De todas as minhas tias, é dela que eu mais gosto. Só não quero vê-la sofrendo desse jeito. – A garota começou a contar todo o desabafo que ouviu sair da boca de tia Lúcia enquanto que a expressão de Ronaldo ia derretendo-se devagar. 
Quando Camila terminou, parecia que nunca mais conseguiria falar novamente. Sua garganta estava completamente seca. Ronaldo continuava calado, estático. Camila já não conseguia mais decifrar o que estava acontecendo com o rapaz. 
- Sabe, Camila... – Mais uma vez ela se assustou, mas dessa vez foi com o quanto a voz de Ronaldo estava calma, rouca. Ficou calado por mais um tempo. – Eu também não... 
Ouviu-se uma voz feminina vinda do outro lado do quarto. – Você ainda está ai? 
Ronaldo ficou agitado. Ela pôde ver que ele ficara encabulado. 
- Tudo bem. Era só isso mesmo que eu queria dizer. Boa noite. – Camila disse tudo isso o mais rápido possível. E nessa mesma velocidade, saiu do quarto de Ronaldo. 
Quando chegou em seu próprio quarto, trancou a porta e se jogou novamente na cama. Dessa vez, o que ela queria esquecer era o tom de voz meloso com que aquela garota chamara Ronaldo. Ela o chamara de “amor”.

Munique.

15 de fevereiro de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte III


Camila se trocou de pressa e voltou para o quarto. A cena que acabara de acontecer não lhe saía da cabeça. Passaria suas férias inteirinhas morrendo de vergonha por causa de sua falta de atenção.
“Como é eu não vi aquela porta?”
Mais do que antes, sua vontade era se trancar naquele quarto e só sair quando a data de sua volta finalmente chegasse. Queria se jogar na cama, se perder embaixo do cobertor e esquecer mais uma vez de sua realidade.
“Não vou sair. Isso! Vou ficar aqui e fingir que caí no sono.” - Pronto. Essa era sua decisão.
Ligou seu ipod mais uma vez e tentou esquecer-se de tudo. Não deu certo. O incidente no banheiro não desgrudava de seus pensamentos. Ficando impaciente, desligou sua música e ficou ouvindo as vozes na casa. Uma delas era forte como um trovão e a fez lembrar do bigode cheio de tio Rodolfo, marido de Lúcia. Lembrou-se de todas as brincadeiras de férias onde ele costumava contar as histórias de pesca juntamente com seu pai. Histórias essas que Camila e seus primos ouviam atentamente.
Apenas quando ouviu as batidas suaves na porta foi quando se deu conta de que havia conseguido o que queria.
- Querida? – Chamou tia Lúcia.
Permaneceu em silêncio. Não queria mesmo sair dali, mas tia Lúcia continuou a insistir.
– O jantar está pronto. Fiz aquela macarronada que você adorava.
Uma coisa que sempre odiara em si mesma era o fato de nunca conseguir dizer não as pessoas. Ouvindo sua tia falando tão docemente que havia feito a comida preferida de sua infância não conseguiu mentir.
- Já vou tia!
“Ok! Eu consigo!”.
Levantou da cama, tomou fôlego e saiu do quarto antes que lhe passasse outro ataque de covardia.
Quando passou pela porta da cozinha, ficou mais tranquila ao ver que o rapaz mal educado que lhe flagrara no banheiro não estava lá.
- Olá, minha querida. – tio Rodolfo lhe abriu um sorriso enorme. – Ia te dar um beijo lá no quarto, mas não quis incomodar.
- Imagina, tio. Não ia me incomodar.  - A hospitalidade dos tios de Camila era comovente.
Os dois sentaram à mesa enquanto, para a infelicidade de Camila, tia Lúcia ia chamar Ronaldo. O primo Ronaldo que acabara de vê-la somente de toalha. Ouvindo os passos vindos do corredor, o coração parecia que ia gelar.
- Camila, você lembra do Ronaldo? – Disse sorridente tia Lúcia.
De repente a garota sentiu seu rosto enrubescer.
- Já nos vimos... no banheiro – Precipitou-se o rapaz.
Todos fizeram uma cara de interrogação. Agora Camila sentia o rosto completamente quente.
- To com fome, mãe. O que tem para comer? – A naturalidade com que Ronaldo falava deixava Camila assustada.
- Macarronada! – A mulher mantinha-se desconfiada.
Após alguns minutos o casal esqueceu-se da história não explicada e tia Lúcia passou a relembrar o passado. Comentou sobre como os dois primos eram inseparáveis, como corriam pelo quintal divertindo-se com brincadeiras que só os dois conheciam e muitas outras histórias. Era incrível como a mulher conseguia falar tanto enquanto comia.
- Rodolfo! Lembra quando eles inventavam de acampar na sala? Eram tão unidos...
Outra coisa que chamava a atenção de Camila era a atitude de Ronaldo. Continuava a comer, tranquilo, como se não houvesse mais ninguém por perto. E assim continuou até...
- Querida, amanhã o Ronaldo vai a uma festa! Sei que seu pai a deixou de castigo, mas creio que não terá problema se deixarmos isso em segredo. Você vai adorar!
- O que?! – Berrou o rapaz. – Ficou louca? Eu não vou levá-la a lugar algum!
- Tenha respeito com sua mãe! – Trovejou Rodolfo.
- O senhor não tá vendo o que ela tá tentando fazer? Eu não quero que comece com essa sua mania de me controlar! Eu não preciso de babá! – E saiu do cômodo como um raio.
Camila não soube o que fazer. Apenas seguiu o exemplo dos tios: ficou em silêncio e engoliu a comida.

5 de fevereiro de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte II



- Está na hora, querida. – Chamou a mãe, do corredor.
- Já estou indo, mãe!
Uma última olhada no celular: nenhum sinal de Joshua e uma semana já havia se passado.
Chegaram ao aeroporto mais rápido que o normal. Cada minuto no lugar onde havia sido criada parecia escorrer com mais rapidez que o anterior. Camila estava dando adeus a sua vida. O momento havia chegado.
- Pai, eu não quero ir. – suplicou pela última vez.
- Desculpe, querida.
A despedida foi cheia de lágrimas enquanto Vânia não parava de repetir que eram apenas dois meses. Dentro do avião, se sentia como nunca antes: abandonada. Conectou seus fones de ouvido, ligou seu ipod e, pelo resto da viagem, esqueceu-se do mundo.
Após horas de viagem a aeromoça anunciou que o avião iria pousar. Camila teve que respirar fundo... acabara de voltar a realidade.
Já no aeroporto ficou meio assustada com a multidão. Ela nunca estivera sozinha em ambientes como esse e estava torcendo para que achasse logo sua tia Lúcia.
Finalmente, duas horas após o pouso, tia Lúcia chegou apressada.
- Me desculpe, minha querida! Aconteceu um problema com uns alunos e acabei me atrasando.
- Tudo bem, tia...
- Olha só pra você! Parece tão abatida! Está com fome? Não é, querida?
Neste momento Camila percebeu que sentia falta do jeito estabanado de tia Lúcia.
- Não, tia, estou bem...
- Bem? Não está não! Mas que belo dia para aquelas crianças me aprontarem...
A mulher não conseguia parar de falar e assim foi por todo o caminho. Quando chegaram em casa, Camila ficou grata por conhecer o confortável quarto de hóspedes.
- Relaxe um pouco, querida. Quando o jantar estiver pronto eu te chamo.
Escolheu as roupas que iria usar durante o jantar, pegou a toalha que estava em cima da cama e seu nécessaire e rumou para o banheiro. A água quente caindo em suas costas foi a breve sensação de alívio que Camila tanto desejara. Sua vontade era permanecer ali por horas, até que seus problemas simplesmente desaparecessem, mas não queria abusar da hospitalidade de tia Lúcia.
Lutando contra a vontade enorme de ficar por mais cinco minutos, desligou o chuveiro e se enrolou na toalha. Pegou sua escova e começou a desembaraçar os cabelos lentamente, pensando em como seria passar as férias naquela casa sem seus pais, como se relacionaria com o marido de tia Lúcia e o filho do casal que não via há anos. Era capaz de morrer de vergonha.
Perdida em seus pensamentos, levou um susto quando viu a porta do banheiro se abrir e mostrar uma figura alta. Como aquela porta tinha aparecido ali? Jurava ter entrado pelo outro lado e trancado a porta.
- Você não sabe trancar a porta não? – perguntou rudemente o rapaz. O som de sua voz a fez tremer.
- E-eu tranquei sim. – olhou para o outro lado do banheiro.
- Você achou que esse banheiro era só seu? Tem que trancar as duas portas. – Ele era bonito demais para uma pessoa tão mal educada.
- Não percebi. Me desculpe. - Antes que tivesse terminado de falar, o garoto bateu a porta fazendo Camila pular com o barulho.
Quando se recuperou do susto veio a vergonha: ele a vira somente de toalha. 

28 de janeiro de 2013

Bem mais do que eu quis - Parte I

Já tava mais que na hora de eu voltar, né! Pois é... e é com muita alegria que eu deixo aqui a primeira parte do meu "conto"! Espero que gostem! Deixem suas opiniões! :D

- Não quero mais discutir! – Vociferou uma garota, batendo a porta de seu quarto.
Uma garota totalmente diferente de Camila...
- Isso não vai mudar as coisas, mocinha! Essa não é você. – Devolveu seu pai.
E realmente não era. Camila sempre fora uma garota doce e educada. Há um tempo seus pais nunca imaginariam que haveria a mínima possibilidade dessa cena acontecer.
 - Deixe-a pensar, Heitor. Ela está de cabeça quente... Todos nós estamos. – Disse a mãe.
Às vinte e quatro horas, enquanto assistiam ao programa de todos os sábados, Heitor e Vânia escutaram a campainha tocar. Ao abrir a porta Heitor deparou-se com duas silhuetas. Uma lhe era familiar. A moça que pensava estar repousando em seu quarto estava agora parada em sua porta, ao lado de um policial.
- Encontrei sua filha ingerindo bebidas alcoólicas com os amigos, senhor. Dessa vez eu relevei. – Informou o homem alto, no idioma local.
- Agradeço muito. Isso não acontecerá mais. – Havia vergonha misturada ao sotaque brasileiro.
Heitor e sua esposa, Vânia, mudaram-se para Seattle quando a menina tinha sete anos de idade. Foi um processo complicado, mas tiveram sucesso na estabilização no novo país e na educação de sua única filha. Até agora. Camila conhecera Josh no colégio e logo se apaixonou. O problema é que o menino não era uma boa influência.
- Amanhã conversamos, Camila. Não esqueça. – Foi a última palavra do pai.
No outro dia, Camila acordou com uma enorme dor de cabeça e teve dificuldade para lembrar-se do que havia acontecido na noite anterior.
“Oh, não! Isso deve ter sido só um pesadelo. Apenas um pesadelo...”
Levantou-se com cuidado e foi até o banheiro. Não, aquela no espelho não era Camila.
“Não pode ser. Foi real!” O reconhecimento da realidade doeu. 
Arrumou-se e desceu para o café da manhã. Os pais estavam sentados à mesa.
- Papai, mamãe... Me desculpem, por favor! – Começou a se explicar. – Mal posso acreditar que tenha mesmo feito aquilo. Estávamos no parque e decidimos ir até a casa de Josh. Não sabia que os pais dele não estariam lá. Nem que haveria bebidas. Me desculpem!
Já aos prantos, foi acolhida pelos braços da mãe. - Eu sabia que você teria uma boa explicação, doçura!
- Tendo explicações ou não, sua mãe e eu já conversamos. Você não voltará a se relacionar com eles, Mila. Principalmente com Josh! – A voz de Heitor era firme.
- Mas, papai, eu o amo! Prometo nunca mais fazer isso! Tenho certeza que ele também dirá a mesma coisa!
- Esse garoto não é bom para você. Sempre foi assim e sempre será. Vai ser melhor, querida.
- Não!
- Esqueça, Camila! Já nos decidimos: você ficará bem longe de Joshua Lang! Já compramos suas passagens. Você passará suas férias no Brasil.
Camila estava devastada com a decisão de seu pai. Como ele foi capaz de imaginar uma coisa assim? Em seu quarto, chorando, ela tentava ligar para Josh.
- Atende, Josh... Por favor! – sussurrava entre os soluços.
Não havia resposta.